segunda-feira, fevereiro 28, 2005

limpeza étnica

aqui não é kosovo, nem ruanda, muito menos auschwitz. ou será que não ?!
desde janeiro, cinco crianças morreram de desnutrição na região do município de dourados, no mato grosso do sul. todas as vítimas não tinham peso e altura compatíveis com suas idades. todos os mortos eram índios.
no brasil, a mortalidade infantil e a desnutrição são maiores entre crianças indígenas. as cidades avançam e os índios perdem seu modo de vida baseado na caça, pesca e agricultura de subsistência. já não conseguem alimentos para todos.
o estado não sabe o que fazer com esses índios "semicivilizados", os quais mesmo falando português e assimilando um pouco da cultura das cidades, ainda vivem em aldeias afastadas, hoje verdadeiras "favelocas". seria preciso muita coragem e investimento para permitir que esses índios sustentassem dignamente sua cultura e terras.
não há vontade política e moral para isso, esses índios vão continuar morrendo. alguns de fome, outros de cirrose, outros tantos de desilusão, abandonando completamente sua cultura. lentamente e silenciosamente também se pode fazer genocídios.

domingo, fevereiro 27, 2005

populares

zé celso
silvio santos


hoje, vi uma notícia sobre a disputa entre o josé celso martinez corrêa e o silvio santos para construir ou não um shopping ao lado do teatro oficina. a sede do sbt fica no bixiga, próxima do oficina. o silvio também é dono dos terrenos ao lado do teatro, mas o zé celso quer há 25 anos construir outro espaco de dramaturgia por lá, o teatro de estádio, baseado em idéias de oswald de andrade para um formato de semi-arena com capacidade para mil pessoas.
em abril do ano passado, os dois se encontraram e chegaram perto de um acordo: construir o novo teatro junto com o shopping. os dois agora querem acertar os detalhes da construção.
o que acho engraçado e inusitado nisso tudo é que são duas figuras aparentemente de mundos completamente diferentes: o silvio é o mega empresário da comunicação, e o zé celso é o porra-louca do teatro nacional. acho interessante quando pessoas tão diferentes se confrontam, debatem. daí pode surgir uma briga danada, mas também idéias ótimas.
os dois são figuras bem populares entre diferentes camadas sociais, esse choque é salutar. o silvio, como ex-camelô e fã dos simpsons (é verdade!), deve ter noção sim que o teatro é muito importante para todos. o zé celso, como é natural dele, já encarou esse caso com muita ironia no passado. ele citou várias vezes a disputa com silvio santos em seus espetáculos e até já escreveu para a "porta da esperança" propondo sociedade com o silvio e o teatro oficina.

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

fórum

laçador



neste ano fui no fórum social mundial, em porto alegre. gostei muito da cidade, existe uma cena rock bem forte com bandas e público fiel, e também lá encontrei pessoas muito especiais. o fórum em si é algo que impressiona, pelo tamanho (mais de 150 mil pessoas em 4 km de área), pelas diferentes pessoas (gente dos cinco continentes, padres, gays, punks, índios, políticos, escritores, hippies, estudantes etc.), pelos vários temas (ambiente, guerra, diversidade, religião, aborto, economia, agricultura, saúde, comunicação etc.) e pela festa/celebração criada (música, teatro, muita maconha no acampamento da juventude e papo o dia todo nas inúmeras barracas, tendas e auditórios).
como já escreveram antes, o fórum é "o maior lobby do planeta", pois lá se concentram e se articulam os maiores movimentos de esquerda social e política do mundo. muitas vezes o comportamento da esquerda é se dizer fraca, sem recursos, “uma formiguinha contra o elefante da globalização”. não é bem assim, com o fórum dá perceber que eles têm muita articulação e já alcançam resultados. a partir do fórum, por exemplo, foram criados fortes sistemas de economia solidária no sul do país, organizações ambientais trocam várias experiências, redes políticas mundiais de esquerda ou anarquistas se fortalecem também.
em porto alegre, pude ver que três linhas políticas se destacam mais no fórum: uma corrente de esquerda tradicional que defende a tomada do poder com ações revolucionárias e ideologia ainda baseada em marx, lenin ou rosa luxemburgo; outra mais pragmática e revisionista que apoia conquistas gradativas do poder para atrair sem medos as massas e não vê com bons olhos o centralismo do estado ou do partido nas decisões sociais e culturais; e uma última que pode ser definida como um “anarquismo pós-moderno”, isto é, mudar o mundo sem tomar o poder com várias pequenas ações culturais e sociais, como desobediência civil e comunidades autogestionadas, que aos poucos poderiam criar alternativas para o modo de vida das pessoas.
quero comentar mais essas linhas políticas, creio que todas elas vão fazer parte do futuro do planeta, ou melhor, já estão no nosso cotidiano, pois o chavez na venezuela, o lula no brasil, e os zapatistas no méxico, são alguns dos exemplos dessas três correntes. todas com erros e acertos.

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

je suis une bonne de maçon

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

vida longa mp3!

muitos burocratas dizem que é a morte do autor e o triunfo dos piratas, mas para mim o mp3 é sim um bálsamo para a música, senhora tão maltratada e medí­ocre ultimamente. com o kazaa descobri, por exemplo, "parque industrial", do grande tom zé. essa canção faz parte de um dos melhores discos dele, "tom zé" (1968), que trazia outras músicas excelentes como "camelô", "não buzine que eu estou paquerando", "são paulo", e muitas outras. faz uns cinco anos que eu fui conhecer a obra de tom zé, é um músico genial, mas os discos antigos dele são praticamente impossí­veis de achar! por isso o mp3 é tão interessante, permite que essas pérolas possam ser encontradas livremente na internet.
aí­ vai a letra irônica, realista e ainda atual de "parque industrial", espécie de marchinha militar misturada com rock(?!):

Parque Industrial
(Tom Zé)

Retocai o céu de anil
Bandeirolas no cordão
Grande festa em toda a nação.
Despertai com orações
O avanço industrial
Vem trazer nossa redenção.
Tem garota-propaganda
Aeromoça e ternura no cartaz,
Basta olhar na parede,
Minha alegria
Num instante se refaz
Pois temos o sorriso engarrafado
Já vem pronto e tabelado
É somente requentar
E usar,
É somente requentar
E usar,
Porque é made, made, made, made in Brazil.
Porque é made, made, made, made in Brazil.
Retocai o céu de anil, ... ... ... etc.
A revista moralista
Traz uma lista dos pecados da vedete
E tem jornal popular que
Nunca se espreme
Porque pode derramar.
É um banco de sangue encadernado
Já vem pronto e tabelado,
É somente folhear e usar,
É somente folhear e usar.


tom zé (1968)