sexta-feira, março 04, 2005

leviatã encontra aquele sem-nome

sempre sou expulso por ele, apanho dele, sofro xingamentos, sou roubado, ele me trata como um velho gagá, comilão, ladrão, doente, sujo, desagradável, injusto. esse jovem é minha ruína, mas eu nunca o vi, nem sei seu nome. aliás, ninguém sabe ao certo o que ele é, mas todos juram que existe.
eu queria cuspir na cara dele, pichar nos muros que ele é veado, perseguir sua família, ridicularizar suas manias, declarar guerra contra seu reino, subornar todos os seus homens de confiança, eu queria fazer um pasquim sópara falar mal dele. alguém me diga onde eu acho esse filho da puta?
dizem que ele está em todos os lugares ao mesmo tempo, como o deus que eu tanto amei e odiei durante toda minha vida. o deus que eu usei quando foi conveniente e reneguei quando não foi mais. não consigo fazer o mesmocom esse sujeito porque ele não tem nenhum livro sagrado, nenhuma imagem, hino ou dia santo. mesmo assim, desgraçadamente ele tem milhões de fiéis, todos rezando na mesma cartilha. também já consegui isso um dia, pela espada e na bala. mas esse miserável nem usa isso, ele é esperto, corrompe e engana um por um na velocidade da luz, algo que eu nunca pensei ser possível.
no meu tempo, as tradições valiam tudo, era um respeito sem fim, os tolos nem se atreviam a questionar. o meu poder tinha uma áurea sagrada, o povo me amava, chorava por mim, rezava, levantava estatuas, cantava em minha homenagem. meu aniversário sempre foi feriado nacional. porém, o que eu sentia mais orgulho eram os meus prédios, palácios gigantes, imponentes, salões e corredores imensos, e sem ninguém para enfear o lugar. apenas eu. para o meu querido povo, deixei edifícios maravilhosos também, com tantas salas quanto suas queixas. foi uma jogada de mestre, o povo entrava nesses lugares e se perdia para sempre, não me enchiam mais o saco.
hoje falam que eu errei nisto, que maltratei demais as pessoas. ingratos. queria ver o que teriam feito sem mim, vocês eram uns bárbaros, um bando de assassinos. eu lhes dei a civilização! mas isso não vale mais nada, agora eu éque sou o tirano desumano. meu sucessor desconhecido fez minha caveira, fez todos acreditarem que sou ultrapassado.
mas o pior é entender que ainda estou vivo só porque ele quer. sou útil para ele assim, ferido, moribundo, porém nunca completamente morto. uma resistência o mantém atento e serve de bode expiatório para a miséria.
um dia vou encontra-lo. a única coisa que sei dele é que mora no norte. talvez até more onde eu já fui rei, vista minhas roupas, coma minhas mulheres, beba meus vinhos, arrote minha comida. quando achar ele vou olhar bem nos seus olhos e dizer: eu te amo.

leviatã