terça-feira, março 08, 2005

o escravo tirano

ainda sobre as mortes de crianças indígenas por desnutrição no mato grosso do sul, fiquei impressionado com as informações de antropólogos que trabalham nas reservas de dourados. no domingo último, a folha de s. paulo (página a16) publicou depoimentos do professor rubem thomaz de almeida, nos quais comenta que historicamente os índios caiuá ocupavam grandes territórios, organizados em famílias extensas associadas a outras aliadas, ou seja, não formavam aldeias. porém, com o avanço da criação de gado e do plantio da soja, esses índios foram obrigados a viver em espaços bem menores. desse modo, famílias de índios rivais hoje têm que conviver juntas.
o que me choca e emociona nessa história é a triste oportunidade de poder notar como o equilíbrio social de um povo é frágil. na visão dos antropólogos, dois aspectos centrais estão por trás da miséria e desnutrição: uma crise na produção agrícola das famílias indígenas e interligada uma crise cultural.
o professor fábio mura conta que os conflitos entre as famílias de índios, que antes podiam ser resolvidos simplesmente com o deslocamento de uma delas, agora são potencializados por não haver espaço suficiente nas reservas para cultivo.
na nova organização imposta pelo estado nas reservas, foi criado o cargo de “capitão”, índio responsável por intermediar contatos e ajuda para os outros moradores. mas obviamente esse capitão acaba privilegiando sua família e aliados. os casos de desnutrição e mortalidade tendem a ocorrer nas famílias deixadas de lado nesse novo sistema.
em relação às terras de onde são originários, os índios caiuás também acreditam que seja seu dever cuidá-las. aí surge outro problema grave, pois como já disse, hoje seu território diminui muito. nessa situação os índios vêem o mundo em desordem, e muitos chegam a acreditar que está próximo de acabar. problemas de violência familiar, subnutrição e alcoolismo recebem então dos índios uma explicação vinda dessa desordem inicial, o que naturalmente cria um círculo vicioso cruel.
dois preconceitos sobre os índios, a preguiça e o alcoolismo, têm na verdade explicações muito sérias e profundas. alterando seu modo de produção e organização, muita coisa foi pisoteada nos seus costumes. os índios não são coitadinhos, nem estão certos ou errados no modo de vida que escolheram. mas claramente foram e ainda são eliminados por uma sociedade mais poderosa. o escravo reclama das correntes, porém também domina os mais fracos que ele. se existem motivos para queixas quanto ao domínio cultural, econômico, político e militar dos eua, também há muitas razões para chorar com a política do estado brasileiro para a população indígena.