sábado, abril 30, 2005

14

foram 14 perguntas feitas por 14 jornalistas ao presidente luiz inácio lula da silva ontem em sua primeira entrevista coletiva para veículos de comunicação. lula fez isso não para ser bonzinho com a mídia, porém de fato ele a atende pouco. o motivo enobrecedor e obrigatório das entrevistas coletivas deveria ser aumentar o relacionamento das autoridades com a sociedade por intermédio de um debate crítico e construtivo com jornais, rádios, tvs e outros meios. porém, ontem o presidente não foi devidamente sabatinado e ganhou força o outro motivo das entrevistas coletivas, criar falsos eventos para permitir pronunciamentos favoráveis ao governo de plantão que saíam publicados na mídia como notícia.
lula e duda mendonça ficaram os dois dias anteriores ensaiando para que o discurso do presidente não caísse em possíveis armadilhas dos jornalistas. porém, a não permissão de réplicas para as respostas do presidente foi a principal arma do governo. o presidente já foi pronto para entrevista, sabia o que responder para cada assunto cabeludo de sua administração, desse modo cada pergunta que lhe foi feita virou na verdade um pronunciamento oficial, não houve a possibilidade dos jornalistas rebaterem as respostas. nesse formato o presidente podia tanto responder adequadamente às perguntas, como enrolar e fugir dos assuntos.
de fato, as respostas foram quase todas idênticas aos discursos que o presidente costuma fazer em eventos oficiais. creio que de novo e um pouco importante foi lula ter admitido falhas na eleição do presidente da câmara dos deputados, na precária situação das estradas brasileiras e na política de juros como único artifício para conter a inflação. mas, como não houve réplicas, ele não foi forçado a explicar as razões desses erros e o que pretende fazer para resolver.
mesmo com esses problemas é evidente também que os jornalistas poderiam ter feito perguntas mais incisivas, afinal entrevista coletiva não é palanque eleitoral.

banco de dados sobre a música brasileira

discos do brasil

sexta-feira, abril 29, 2005

meu revolucionário sistema de absorção de impactos na infância

kichute

quinta-feira, abril 28, 2005

a grande arte

a grande arte


já é lugar-comum afirmar a superioridade dos contos de rubem fonseca (1925) sobre seus romances, e de fato não basta estender uma ótima história para ter um bom romance. “a grande arte” (1983), segundo trabalho do escritor mineiro nesse gênero e vencedor do prêmio jabuti em 1984, tem como protagonista o advogado mandrake, personagem célebre na obra de fonseca tanto em contos (“o cobrador”, 1979) como em novelas (“e do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto”, 1997). na tradição dos romances policiais, “a grande arte” segue a linha do subgênero noir, pois o detetive (mandrake) assume o papel do narrador que não soluciona a totalidade de seu enigma e muito menos se apresenta como alguém infalível. os crimes a desvendar, assassinatos de prostitutas e ações ilícitas de uma poderosa organização mafiosa, acabam na verdade interessando mais por mostrar a impossibilidade das relações humanas, tema comum na literatura de fonseca. mandrake vive num mundo de desconfianças, não acredita nos seus clientes, tem poucos amigos, por insegurança coleciona amantes, e cria obsessões efêmeras como, no caso deste livro, a arte do percor (perfurar e cortar), a luta com armas brancas. é um grande retrato da vida urbana moderna da alta e baixa sociedade, com uma linguagem coloquial seca e rápida e um erotismo sem máscaras. contudo, em alguns momentos o romance perde o fôlego e as tão humanas e ridículas manias de mandrake viram algo tedioso e infantil. sabiamente o autor nesses momentos soube colocar em cena personagens mais complexos, como o inescrupuloso anão negro nariz de ferro, e o matador boliviano camilo fuentes, os quais têm as belas e torpes contradições tão presentes em seus contos.

terça-feira, abril 26, 2005

livros de história

ontem, os armênios espalhados pelo mundo lembraram os 90 anos do massacre de 1,5 milhão de seus antepassados. a armênia acusa seu vizinho, a turquia, de realizar o genocídio em 1915 para conquistar territórios. outros milhares de armênios conseguiram fugir, indo parar na síria, líbano, eua e também no brasil.
a turquia até hoje nega o massacre, apenas diz que aconteceram algumas mortes dos dois lados em decorrência do final do império otomano na primeira guerra mundial. na sua história, a armênia já esteve sob controle dos impérios persa, romano, bizantino, otomano e russo.
outro antigo império do oriente, o japonês, também voltou a ser notícia recentemente. os japoneses, principalmente na primeira metade do século 20, tentaram dominar as coréias e a china praticando muitos crimes de guerra no período. a china protestou veementemente contra novos livros didáticos do japão que omitem ou minimizam as atrocidades do passado. além de exigir a retratação japonesa, os chineses também querem assumir de vez seu posto de líder na ásia e evitar qualquer interferência futura na sua relação com a rebelde província, ou país autônomo, de taiwan.
também já escrevi aqui sobre a guerra do paraguai. brasil, uruguai e argentina realizaram um genocídio no vizinho, a população ficou reduzida a poucos homens, uma grande parte da populaçãopassou a ser formada apenas por mulheres e crianças. nossos livros de história nas escolas citam rapidamente a guerra do paraguai e não mencionam o massacre.
claro que a história é contada pelos vencedores, ou melhor, a versão que fica e é aceita politicamente e ideologicamente é a dos mais fortes. caso o eixo fascista houvesse ganho a segunda guerra mundial, provavelmente nem existiram os muitos filmes sobre o holocausto. a china hoje só consegue o perdão público do japão porque virou uma potência militar e econômica. armênia e paraguai são países pobres, por isso não recebem desculpas ou seus velhos territórios de volta.

domingo, abril 24, 2005

o lobby da microsoft

Microsoft levará deputados para fórum em Washington

A Microsoft, maior empresa do mundo de software pago, convidou um grupo de parlamentares brasileiros para participar de um fórum para líderes de governo, em Washington. O encontro, com transporte áereo e alimentação pagos pela empresa, será na próxima semana e terá a duração de dois dias. Apesar de o governo federal estar estudando obrigar os órgãos públicos a usar software livre, os parlamentares convidados, tanto da base aliada quanto de oposição, rechaçam a idéia de que a Microsoft esteja fazendo lobby junto ao Congresso para tentar continuar a vender programas da empresa, como o Windows, para a administração pública.

"Seria muita ingenuidade da Microsoft achar que iria ganhar alguma coisa com esse convite aos parlamentares. Se a Microsoft tem a intenção de fazer lobby, não colherá nenhum fruto", garantiu o ex-líder do governo na Câmara Professor Luizinho (PT-SP), um dos convidados para o encontro. "O temário do seminário não aborda em nenhum momento essa questão do software pago e livre. Tive o cuidado de me informar sobre isso. Acho que o convite não passa pela intenção de fazer lobby. Se passar, eles vão perder a viagem", disse o deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP).

Luizinho argumentou ainda que a Microsoft faz esse tipo de evento há anos e sempre convidou parlamentares para participar dos debates e palestras promovidos pela empresa. "Por que este ano seria de lobby e nos outros não foi?", indagou o petista. "Não acredito que a Microsoft ache que com um seminário possa alterar as opiniões de alguém", completou. Tanto ele quanto Cardozo observaram que a política do governo Luiz Inácio Lula da Silva na área de informática é clara na questão de privilegiar o software livre, sem necessidade de pagamento de royalties. "O governo defende o software livre", disse o ex-líder do governo. "Sou favorável ao desenvolvimento do software livre", afirmou Cardoso.

Além de Luizinho e Cardozo, foram convidados dois outros petistas, que já confirmaram presença: os deputados Jorge Bittar (PT-RJ) e Nelson Pellegrino (PT-BA), que já foi ao evento no ano passado.

O líder da minoria na Câmara, deputado José Carlos Aleluia (PFL-BA), e o deputado Júlio Semeghini (PSDB-SP) também participarão do ciclo de debates e palestras com o presidente da Microsoft, Bill Gates, e o ex-secretário de Estado dos Estados Unidos, Colin Powell. O encontro será nos dias 26 e 27.

Fonte: Estadão

sábado, abril 23, 2005

jorge

Jorge, santo do século IV, príncipe da Capadócia ou plebeu, que arrancou e destruiu o edito de Diocleciano contra os cristãos. Martirizado a 23 de abril de 303, seu dia votivo. Venerado na Rússia, Itália, Inglaterra (patrono em 800), Portugal, etc. Tornou-se um perseu cristão, cavaleiro andante, vencedor de dragões e salvador de virgens cativas, casando com uma princesa egípcia e morrendo em Coventry.

Os gregos o chamavam megalomártir o grande mártir. O rei Fernando de Portugal, recebeu a tradição de São Jorge através dos ingleses que o tinham como padroeiro. Dom João I, o fundador da dinastia de Aviz, tornou-se seu devoto e o fez patrono nacional em substituição a Santiago, que o era igualmente dos castelhanos mandando que a imagem figurasse, montando um cavalo, na procissão de Corpus Christi, onde saiu pela primeira vez em 1387. Na festa de Corpus Christi no Brasil (Rio de janeiro, São Paulo, Bahia, etc.) a figura se São Jorge montado num cavalo branco e cercado de aparato militar, era o maior centro de interesse.

No Rio de Janeiro a imagem possuiu capelinha na rua São Jorge. A Irmandade, em 1854, agregou-se à confraria de São Gonçalo Garcia. A imagem que recebia as continências de todas as forças militares salvas de artilharia e era acompanhada pelo "Casaca de Ferro" vestido de folhas-de-flandres, imitando um guerreiro medieval, está recolhida à igreja de São Gonçalo Garcia, na praça da República (Melo Morais Filho, Festas e Tradições Populares do Brasil, 'Corpus Crhisti, a Procissão de São Jorge', 257-264, Rio de Janeiro, 1946; Vieira Fazenda, 'Antiqualhas de Memórias do Rio de Janeiro', Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, tomo 86, v. 140, 237).

Na cidade de Salvador, São Jorge saiu até 1865, com séquito e o "Homem de Ferro" (João Silva Campos, Procissões Tradicionais da Bahia, 234, Bahia, 1941). Em São Paulo veio até 1872, quando, desequilibrando-se, a imagem caiu sobre um soldado, matando-o. Está guardada no Museu da Cúria Metropolitana (Paulo Cursino de Moura, São Paulo de Outrora, p. 40. São Paulo, 1943).

No populário, São Jorge é invocado como defensor das almas contra o demônio, tentações, suspeita de feitiço, rivalizando, dentro de certa medida, como o poderoso São Miguel. Nos candomblés da Bahia identificamo-no com Oxóssi e Odé, e nas macumbas do Rio de Janeiro, Recife e Porto Alegre com Ogum.
(CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro)

ORAÇÃO DE SÃO JORGE

Jesus adiante, paz e guia
Me recomendo a Deus e à Virgem Maria, minha mãe
Aos doze apóstolos, meus irmãos
Andarei noite e dia
Eu e o meu corpo criado
E com as armas de São Jorge circulado

O meu corpo não será preso, nem ferido
Nem o meu sangue derramado
Andarei tão livre como andou Jesus Cristo
Nove meses no ventre da Virgem Maria

Meus inimigos terão olhos e não me verão
Terão boca e não falarão
Terão pés e não me alcançarão
Terão mãos e não me ofenderão
Pela glória de São Jorge
Amém, Jesus


(XIDIEH, Osvaldo Elias. Narrativas populares)

são jorge

quarta-feira, abril 20, 2005

macaquitos

veio da guerra do paraguai, no século 19, nosso vulgo de “macaquitos”. guerra violenta e covarde, situação perfeita para aparecer o ódio e o preconceito.
alguns batalhões de soldados brasileiros eram formados quase que exclusivamente por negros escravos. logo nossos “aliados” argentinos passaram a chamar os brasileiros de macaquitos.
pelo que sei também é curiosa a relação da sociedade argentina com os negros. de fato, hoje em dia chamar alguém de “el negro” por lá não tem sempre um sentido tão ofensivo. a argentina é um país com poucos negros, portanto alguém moreno, com a pele ou o cabelo um pouco escuro, já é chamado de negro. isso acontece até com gente famosa, como jogadores de futebol, cantores e políticos, vide o ex-presidente eduardo duhalde.
porém, esse sentido ameno e por vezes carinhoso só vale para os nativos das cidades. os índios, por exemplo, são chamados no nosso vizinho de “negros” com uma acepção pejorativa, o mesmo vale para imigrantes bolivianos, paraguaios e, claro, os brasileiros.
lá como cá, o preconceito parece ser algo mascarado, mas que obviamente tenta excluir aqueles de classes sociais economicamente inferiores ou, de modo talvez mais forte na argentina, os estrangeiros pobres.

teatro

segunda-feira, abril 18, 2005

nas tetas do governo

patrimonialismo, a forma de governo do brasil, subverte a coisa pública, a qual passa pertencer a uns poucos privilegiados. o nepotismo, a ciência daqueles severinos e seus asseclas dos outros poderes, campeia pela nação. derrotados e fracassados, a maior parte da população não tem essa mamata, mesmo elegendo ou pagando os servidores públicos e suas numerosas famílias.
proles, esposas, irmãos, amantes, cunhados, primas, sogras, esses ilustres parentes, capacitados (ou não) por um honorário diploma universitário, recebem os milhares de cargos de confiança das nossas autoridades. a meritocracia agoniza no reino do favor.
profissionais qualificados, chorai! nossa república não é impessoal, não há democracia...

futebol

o fluminense tem o antigo apelido de “pó-de-arroz” não apenas por ser classificado como pipoqueiro pelos adversários. quando o clube das laranjeiras foi fundado (1902) os negros não podiam jogar por lá, e a solução ridícula e vexaminosa mais tarde encontrada para essa proibição foi passar pó-de-arroz na pele escura dos atletas de ébano.
é claro que os negros sempre foram em maior quantidade os melhores jogadores de futebol brasileiro. assim, o racismo teve de ser engolido ou virar algo “cordial”, como acontece em tantas outras atividades. aceitamos os negros porque eles são em grande número no país ou importantes em muitas áreas: esportes, artes, ou, sem hipocrisia, nos trabalhos mais pesados e menos remunerados. porém, mesmo aceitando o negro, insistimos no preconceito, como é corriqueiro no meio do futebol nacional (e mundial), com termos como negro sujo e macaco em quase todas as partidas, e pouco permitimos que os negros façam parte de outras áreas de maior poder aquisitivo.
claro que o argentino mereceu a prisão, mas isso aconteceu também pela rivalidade com o vizinho e porque deu boa visibilidade para a polícia e a justiça de são paulo. isso devia ter acontecido antes, com brasileiros em campeonatos nacionais, já que insultos racistas são comuns por aqui.

sexta-feira, abril 15, 2005

infinito de sofrimento

lula é recebido com festa na áfrica, pelo menos nas ruas do continente. pode ser preconceito, mas a impressão que fica é que o povo africano é carente até de visitas, aquele primo pobre esquecido para o resto da família. pelo menos as notícias que chegam aqui mostram que as visitas de chefes de estado por lá são mais raras, obviamente concentradas na áfrica do sul e na nigéria.
a intenção da diplomacia brasileira de transformar o país numa espécie de eua dos pobres explica a turnê do presidente pela áfrica. a intenção é conquistar mercados e futuras alianças comerciais e geopolíticas. a áfrica tem graves problemas e um atraso ainda maior que o do brasil, mas tem muito minério e recursos naturais, além precisar de infra-estrutura tecnológica e social que o brasil pode vender também. enfim, éum investimento com resultados a longo prazo a parceria brasil-áfrica.
talvez a maior ganho brasileiro seja mesmo posar como o grande país defensor dos pobres. para a intenção brasileira de liderar os países sub ou em desenvolvimento, pegam muito bem as vistas amigáveis na áfrica. já éa quarta vez que lula foi lá.
claro, há também o lado politicamente correto e sentimental, a aproximação física com um continente amplamente ligado ao brasil e um mea culpa pela escravidão. o infinito de sofrimento dos negros também passa pelo brasil.

quinta-feira, abril 14, 2005

vício

vício no começo é bom, muito bom. experimentar um excesso de prazer, que pode ir diminuindo caso o vício não aumente. algo para ajudar, preencher a vida, ou mesmo tomar o lugar da vida e expulsar o que não for prazer. vários momentos como ébrio, sem querer voltar a ser sóbrio. mas permanecer chapado não elimina a possibilidade de usar o prazer? hedonista preso em si não aproveita o que aprende com o gozo.
momentos de caretice lembrando porém das viagens. a experiência da loucura passa a fazer parte da vida ordinária. vícios contudo são cumulativos, associativos, egoístas, é difícil achar espaços para outras coisas. drunk or not drunk?

quarta-feira, abril 13, 2005

zatoichi 3

zatoichi


conversas infantis numa taverna regadas a saquê. um viciado em jogos de azar. uma gueixa travesti. do meio para o fim, “zatoichi” é um filme muito engraçado, tem um humor singelo. as pessoas, inseridas na violência e na tensão, não esquecem de sorrir. o apostador compulsivo shinkichi, um verdadeiro imbecil, desastrado e nada modesto, acaba virando o parceiro de zatoichi. numa cena shinkichi tenta imitar seu amigo samurai e inventa de ensinar artes marciais para três adolescentes. claro que fracassa de forma hilária e apanha dos jovens. piada simples, mas com uma metalinguagem interessante, pois ao tentar coreografar uma luta com a intenção de ensina-la, o tolo mostra na verdade como foram feitas todas as batalhas do filme. desfaz a ilusão do cinema.
outros personagens fabulosos em cena são o casal de irmãos gueixas. num primeiro olhar, eles fazem parte de uma história trágica, pois quando crianças tiveram seus pais e familiares mortos por uma gangue. ao menino e a menina órfãos sobrou apenas tentar sobreviver de forma indigna: os dois se travestem de gueixas e passam a vender seus encantos e corpos.
o menino gueixa curiosamente (ou não?) encanta mais os homens, e assume com coragem a proteção da irmã, a qual se dedica a tocar um instrumento musical para seu irmão dançar e enfeitiçar os fregueses. os dois fazem um pacto de amor fraterno e de vingança, já que quando crescem passam a matar os clientes que pertenciam à gangue de assassinos. porém, o humor aparece porque o filme aborda o caráter inusitado de uma gueixa homem, contudo sem preconceitos ou maniqueísmo, ao contrário, essa situação também faz parte da motivação do samurai zatoichi.
sobre a música, na trilha sonora ela é parte da sincronia da vida, já que embala cenas de fazendeiros preparando a terra e trabalhadores construindo uma casa. o ritmo é uma fusão da tradicional música japonesa com sintetizadores eletrônicos.
perto do fim, quase todo o elenco do filme participa de um festival de música, uma espécie de “gran finale”. todos dançam, sapateiam, ao som de uma música percursiva contagiante e forte. na telona do cinema isso vira um ritual humanista, uma reconciliação do passado e do presente dos personagens, algo que te deixa com um grande sorriso.

terça-feira, abril 12, 2005

zatoichi 2

zatoichi


a violência de “zatoichi” é incompleta, isto é, a edição das cenas de luta exclui de propósito alguns golpes de espada, ou os mostra em ângulos de visão ruins. o espectador tem que completar o que falta em sua imaginação, assim como acontece na leitura de hqs. essa estética ou linguagem dos quadrinhos também surge no sangue que jorra em excesso a cada corte de espada.
a violência também é exagerada na extrema velocidade e habilidade dos samurais, porém “zatoichi” é diferente de outros recentes filmes de artes marciais, nos quais os heróis desviam de balas ou andam sobre a água. aqui há um pouco mais de realismo, existe o esforço e a dor das pessoas, porém sem sadismo, pelo menos quando os samurais lutam. os demais componentes desse ambiente violento, uma gangue e aqueles perseguidos por ela, são sim sádicos ou ridículos. entendem a violência somente como um brinquedo ou meio para o poder.
agora percebo algo estranho: até aqui esses comentários podem dar a impressão de que se trata de um drama violento e triste. porém, fique surpreso, como eu fiquei, pois “zatoichi” também é uma comédia e um musical.

domingo, abril 10, 2005

zatoichi 1

zatoichi


orson welles, josé mojica marins, clint eastwood e takeshi kitano. todos eles atuaram como protagonistas em muitos dos seus respectivos filmes e criaram arquétipos próprios no cinema, personagens que se repetiram com diferentes matizes. penso nisso após ver “zatoichi”. de novo lá está “beat takeshi”, como é conhecido o diretor no japão, o misterioso homem que revela só de vez em quando seus sentimentos, um ser simpático e fechado ao mesmo tempo, e de uma violência inata que explode de repente sem que haja qualquer mudança na sua fisionomia.
dessa vez kitano reinventa seu arquétipo na pele de um samurai cego, o lendário zatoichi, um andarilho que no japão feudal ajudava pessoas ameaçadas por criminosos e donos de terra. a partir dos anos 60, já foram feitos outros 26 filmes e uma série para tv sobre o mítico guerreiro cego. nesta última versão kitano, que também é o roteirista, se baseou num conto de kan shimozawa, uma aventura sem busca da nobreza, apenas guiada pelas circunstâncias e o caráter de zatoichi.
sua cegueira é sua maior expressão, um estado da mente e do corpo que dialoga com todos os outros personagens. na construção de kitano, o samurai interage com o espaço e os outros sentidos de forma completa, sabe ligar as sensações auditivas, táteis, palatais, olfativas com as personalidades e índoles das pessoas que conhece. é a velha tradição do herói que tira sua força de sua deficiência, no caso aqui vê mais do que as pessoas que têm a visão normal.
como um morcego, zatoichi é ágil e preciso com sua espada, a qual permanece escondida dentro de sua bengala. o objeto que ampara o samurai oculta sua arma letal, ou melhor, mesmo quando a espada não é usada, o bastão que apoia o cego também é um símbolo de poder, já que ele sabe tirar proveito da cegueira.
as características do cinema de kitano estão presentes na alegre infantilidade de seus personagens, no imaginário que cria devaneios na trama, e na violência abrupta de algumas cenas. são ingredientes que causam estranhamento, principalmente para nós que estamos acostumados a um cinema (dos eua e seus imitadores) cheio de clichês e modelos prontos de personagens e tramas.

sábado, abril 09, 2005

houve uma papisa?

são curiosos os símbolos do catolicismo, os rituais, as inúmeras roupas, as preces em latim. no funeral do papa estamos vendo milhões de pessoas acompanhando com grande atenção cada passo das cerimônias em sua homenagem. para alguns é algo um tanto ridículo, mais uma ostentação da igreja, porém o povão adora esse espetáculo. e de fato, pelo que nossos velhos parentes contam, ou o que lembramos da infância, parece que os funerais eram uma espécie de celebração da morte. o velório, o cortejo fúnebre, o luto, o enterro eram todos rituais longos, disciplinados, nos quais a comunidade participava.
esse culto do sagrado, que já foi muito mais rígido, também é fonte de lendas. o conclave para eleger o próximo papa, por exemplo, é cheio regras e mistério. obviamente surgem especulações sobre conspirações políticas e rituais religiosos ou profanos. claro que isso não é de todo mal para a igreja, ao contrário, esse segredo acaba mitificando seus símbolos.
após toda essa introdução, você vai entender que a existência de lendas bizarras ou impossíveis sobre a igreja católica é algo completamente explicável. mas o que dizer da existência de uma papisa? parece mentira da grossa, puro sacrilégio. como tantas outras lendas da idade média, esta não tem data precisa, são vários os personagens citados (com diferentes nomes), e diversas versões. porém, do mesmo modo, vários documentos históricos citam a papisa, e a lenda, naturalmente ótima, é espalhada até hoje.
para quem não conhece, vou contar a lenda mais difundida. entre os séculos ix e x, nascia em mainz, alemanha, joana, a qual na idade adulta viria a se apaixonar por um monge. o casal resolve mudar-se para atenas e lá ambos estudaram teologia e filosofia.
para ocultar seu romance, joana decide vestir-se como um homem e adotar o sacerdócio. mais tarde, os dois optam por ir morar em roma e joana, agora possivelmente chamada de johannes angelicus, avança na hierarquia da igreja e chega a ser nomeada cardeal.
por sua notável inteligência, joana finalmente é eleita pontífice. como era de se esperar, ela não abandonou sua vida amorosa e engravidou. exercendo suas funções do papado mesmo grávida, joana acaba dando a luz na rua durante uma procissão. o choque do povo foi tremendo e o castigo brutal: joana foi amarrada a um cavalo e arrastada para fora de roma, e logo em seguida apedrejada até a morte.
claro, existem lendas que classificam a papisa como enviada do demônio. outros textos dizem que na verdade a suposta mulher papa era um eunuco. também existem aqueles que classificam a lenda como difamação dos protestantes ou de setores descontes da igreja católica. quem sabe por assimilar a cultura dos homens, no tarot a carta da papisa realmente representa a sabedoria, o conhecimento, é a detentora da chave dos grandes mistérios.

papisa

sexta-feira, abril 08, 2005

esse negrão vai te salvar, irmão(ã)!!!

terça-feira, abril 05, 2005

(super)heróis e dramalhões

spider-man


até quem não conhece hq, ou muito menos o homem-aranha, gostou do seu filme. pude comprovar isso de novo ontem aqui em casa.
o truque, o trunfo ou o achado dessa adaptação nem é algo tão original, pois ele é muito semelhante ao grande sucesso “superman”, de 1978. nos dois, tão importante quanto os feitos dos super-heróis, também são suas vidas privadas. clark kent e louis lane, peter parker e mary jane, são casais apaixonados, porém também com amores quase impossíveis, pois o super-herói vive o eterno dilema: entregar-se ao amor ou combater o mal? mulheres pedem dedicação exclusiva, elas não suportariam um marido que toda a noite sai para arriscar a vida e chega tarde em casa, além de trabalhar de graça. e claro, o motivo mais enobrecedor: o super-herói vive sempre com medo de que os vilões possam matar sua família, assim preferem abrir mão desta.
o filme do homem-aranha tem também alguns diferenciais bem importantes e que lhe dão mais densidade dramática, herdados da hq de stan lee e jack kirby. peter parker está saindo da adolescência quando ganha seus super-poderes, por isso é todo cheio de medos, inseguranças e dúvidas. isso faz dele um herói que erra, hesita, quase fracassa, bem diferente do perfeito super-homem, modelo mais próximo do herói clássico. muitos dizem que essa idealização do herói morreu ou diminui a partir de “o engenhoso fidalgo dom quixote de la mancha” (1605), de cervantes, pois surgia um herói à semelhança da loucura, fraqueza e medos dos seres humanos, um anti-herói. claro, peter parker tem só um pedacinho dessa reflexão sobre os homens, mas isso já é o suficiente para todo o leitor (ou espectador) da idade dele se identificar com sua jornada.
por fim, o melodrama talvez seja o poder mais intenso do homem-aranha. peter parker é órfão, foi criado por seus tios, may e ben, dois adoráveis velhinhos. ele teve uma infância modesta, e começou a trabalhar cedo para ajudar em casa. na escola pública que freqüentou sempre foi humilhado pelos colegas mais ricos e mais fortes. enfim, vários ingredientes para formação de caráter e exemplos de sofrimento para futuras redenções. mas desgraça pouca é bobagem, logo o tio ben morre e a culpa cai toda em cima de peter: já com seus superpoderes ele deixa fugir o ladrão que viria matar seu tio, e isso logo em seguida a uma discussão entre os dois, na qual tio ben havia cobrado responsabilidade do jovem peter e proclamado a frase célebre da hq (filme): grandes poderes exigem grandes responsabilidades.
o homem-aranha/peter parker carrega para sempre essa culpa e resolve assumir sua missão, lutar contra o mal e aceitar todas as dores que isso traz. ou seja, vira um adulto. porém, como na vida real de todos os mortais, ele não aceita isso muito bem e no caminho vai continuar hesitando, com alegrias e tristezas no caminho.
coisa de criança, não?!

sábado, abril 02, 2005

os tubos do poder 2

numa dessas estranhas coincidências da vida, terri schiavo e o papa joão paulo 2º morreram em datas muito próximas.
ela, ao que parece, vai ser esquecida e outro caso grotesco vai entrar no lugar. e concordo com meu caro fabiano, a forma inconveniente como o caso foi tratado pela mídia e pelos políticos da direita religiosa, também ajudou os defensores da eutanásia. muitas pessoas foram estimuladas a defende-la argumentando não querer passar por esse circo. permitir ou não a alternativa final da eutanásia depois da morte cerebral é decisão de cada sociedade, mas se ela for permitida somente a família deveria se envolver nessa questão.
quanto a karol wojtyla, já virou um mito como papa joão paulo 2º, receberá o choro e homenagens de milhões. por isso seu sucessor talvez tenha suas qualidades, mas provavelmente terá todos seus defeitos.
contudo, achei muito digna a decisão final do papa de morrer em seu apartamento no vaticano, perto de seus amigos, como qualquer ser humano gostaria de morrer. só acho que ele deveria ter renunciado quando seu estado de saúde se agravou, pois já não podia mais exercer suas funções. mas isso era decisão sua como chefe supremo da igreja católica, na certa ninguém vai criticá-lo.
só espero que os meios de comunicação, os políticos e a sociedade não troque a dor do recente massacre na baixada fluminense pela dor da morte do papa. grupos de extermínio impunes são uma das piores chagas do brasil.

diclofenaco

no estado de são paulo existe uma fábrica de medicamentos chamada furp – fundação para o remédio popular, a qual fornece os mesmos de graça nos postos de saúde.
estou com uma forte dor no pé direito, principalmente nos dedos, que vem desde de janeiro. odeio tomar remédios, por isso estava esperando passar.
finalmente, resolvi ir no posto de saúde, enfrentei uma fila pequena, só uma hora. fui atendido por um clínico geral, a consulta demorou menos de cinco minutos, ele nem se levantou da cadeira. apenas pediu um raio-x do meu pé e receitou um bendito antiinflamatório, o diclofenaco.
a furp não fornece bulas para seus remédios, já que eles são entregues gratuitamente para a população. na quarta-feira comecei a tomar o antiinflamatório, sempre com leite, e hoje de madrugada acordei com enjôos e de manhã diarréia. agora estou com dores pelo corpo.
pesquisei e descobri o site da furp e lá o “memento terapêutico” do querido diclofenaco. veja algumas das reações que ele pode causar:

“Os principais efeitos adversos são distúrbios gastrintestinais, como dor epigástrica, náuseas, diarréia
ou cólica abdominal, obstipação, indigestão; ocorrem também cefaléia leve a moderada e edema.
Menos freqüentes são diarréia sanguinolenta, hematêmese, melena, flatulência, angina pectoris, arritmias
cardíacas. Houve casos isolados de retocolite ulcerativa, doença de Crohn, glossite e estomatite
aftosa.”

viva a saúde pública brasileira!!!