quinta-feira, abril 28, 2005

a grande arte

a grande arte


já é lugar-comum afirmar a superioridade dos contos de rubem fonseca (1925) sobre seus romances, e de fato não basta estender uma ótima história para ter um bom romance. “a grande arte” (1983), segundo trabalho do escritor mineiro nesse gênero e vencedor do prêmio jabuti em 1984, tem como protagonista o advogado mandrake, personagem célebre na obra de fonseca tanto em contos (“o cobrador”, 1979) como em novelas (“e do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto”, 1997). na tradição dos romances policiais, “a grande arte” segue a linha do subgênero noir, pois o detetive (mandrake) assume o papel do narrador que não soluciona a totalidade de seu enigma e muito menos se apresenta como alguém infalível. os crimes a desvendar, assassinatos de prostitutas e ações ilícitas de uma poderosa organização mafiosa, acabam na verdade interessando mais por mostrar a impossibilidade das relações humanas, tema comum na literatura de fonseca. mandrake vive num mundo de desconfianças, não acredita nos seus clientes, tem poucos amigos, por insegurança coleciona amantes, e cria obsessões efêmeras como, no caso deste livro, a arte do percor (perfurar e cortar), a luta com armas brancas. é um grande retrato da vida urbana moderna da alta e baixa sociedade, com uma linguagem coloquial seca e rápida e um erotismo sem máscaras. contudo, em alguns momentos o romance perde o fôlego e as tão humanas e ridículas manias de mandrake viram algo tedioso e infantil. sabiamente o autor nesses momentos soube colocar em cena personagens mais complexos, como o inescrupuloso anão negro nariz de ferro, e o matador boliviano camilo fuentes, os quais têm as belas e torpes contradições tão presentes em seus contos.