terça-feira, abril 05, 2005

(super)heróis e dramalhões

spider-man


até quem não conhece hq, ou muito menos o homem-aranha, gostou do seu filme. pude comprovar isso de novo ontem aqui em casa.
o truque, o trunfo ou o achado dessa adaptação nem é algo tão original, pois ele é muito semelhante ao grande sucesso “superman”, de 1978. nos dois, tão importante quanto os feitos dos super-heróis, também são suas vidas privadas. clark kent e louis lane, peter parker e mary jane, são casais apaixonados, porém também com amores quase impossíveis, pois o super-herói vive o eterno dilema: entregar-se ao amor ou combater o mal? mulheres pedem dedicação exclusiva, elas não suportariam um marido que toda a noite sai para arriscar a vida e chega tarde em casa, além de trabalhar de graça. e claro, o motivo mais enobrecedor: o super-herói vive sempre com medo de que os vilões possam matar sua família, assim preferem abrir mão desta.
o filme do homem-aranha tem também alguns diferenciais bem importantes e que lhe dão mais densidade dramática, herdados da hq de stan lee e jack kirby. peter parker está saindo da adolescência quando ganha seus super-poderes, por isso é todo cheio de medos, inseguranças e dúvidas. isso faz dele um herói que erra, hesita, quase fracassa, bem diferente do perfeito super-homem, modelo mais próximo do herói clássico. muitos dizem que essa idealização do herói morreu ou diminui a partir de “o engenhoso fidalgo dom quixote de la mancha” (1605), de cervantes, pois surgia um herói à semelhança da loucura, fraqueza e medos dos seres humanos, um anti-herói. claro, peter parker tem só um pedacinho dessa reflexão sobre os homens, mas isso já é o suficiente para todo o leitor (ou espectador) da idade dele se identificar com sua jornada.
por fim, o melodrama talvez seja o poder mais intenso do homem-aranha. peter parker é órfão, foi criado por seus tios, may e ben, dois adoráveis velhinhos. ele teve uma infância modesta, e começou a trabalhar cedo para ajudar em casa. na escola pública que freqüentou sempre foi humilhado pelos colegas mais ricos e mais fortes. enfim, vários ingredientes para formação de caráter e exemplos de sofrimento para futuras redenções. mas desgraça pouca é bobagem, logo o tio ben morre e a culpa cai toda em cima de peter: já com seus superpoderes ele deixa fugir o ladrão que viria matar seu tio, e isso logo em seguida a uma discussão entre os dois, na qual tio ben havia cobrado responsabilidade do jovem peter e proclamado a frase célebre da hq (filme): grandes poderes exigem grandes responsabilidades.
o homem-aranha/peter parker carrega para sempre essa culpa e resolve assumir sua missão, lutar contra o mal e aceitar todas as dores que isso traz. ou seja, vira um adulto. porém, como na vida real de todos os mortais, ele não aceita isso muito bem e no caminho vai continuar hesitando, com alegrias e tristezas no caminho.
coisa de criança, não?!