domingo, abril 10, 2005

zatoichi 1

zatoichi


orson welles, josé mojica marins, clint eastwood e takeshi kitano. todos eles atuaram como protagonistas em muitos dos seus respectivos filmes e criaram arquétipos próprios no cinema, personagens que se repetiram com diferentes matizes. penso nisso após ver “zatoichi”. de novo lá está “beat takeshi”, como é conhecido o diretor no japão, o misterioso homem que revela só de vez em quando seus sentimentos, um ser simpático e fechado ao mesmo tempo, e de uma violência inata que explode de repente sem que haja qualquer mudança na sua fisionomia.
dessa vez kitano reinventa seu arquétipo na pele de um samurai cego, o lendário zatoichi, um andarilho que no japão feudal ajudava pessoas ameaçadas por criminosos e donos de terra. a partir dos anos 60, já foram feitos outros 26 filmes e uma série para tv sobre o mítico guerreiro cego. nesta última versão kitano, que também é o roteirista, se baseou num conto de kan shimozawa, uma aventura sem busca da nobreza, apenas guiada pelas circunstâncias e o caráter de zatoichi.
sua cegueira é sua maior expressão, um estado da mente e do corpo que dialoga com todos os outros personagens. na construção de kitano, o samurai interage com o espaço e os outros sentidos de forma completa, sabe ligar as sensações auditivas, táteis, palatais, olfativas com as personalidades e índoles das pessoas que conhece. é a velha tradição do herói que tira sua força de sua deficiência, no caso aqui vê mais do que as pessoas que têm a visão normal.
como um morcego, zatoichi é ágil e preciso com sua espada, a qual permanece escondida dentro de sua bengala. o objeto que ampara o samurai oculta sua arma letal, ou melhor, mesmo quando a espada não é usada, o bastão que apoia o cego também é um símbolo de poder, já que ele sabe tirar proveito da cegueira.
as características do cinema de kitano estão presentes na alegre infantilidade de seus personagens, no imaginário que cria devaneios na trama, e na violência abrupta de algumas cenas. são ingredientes que causam estranhamento, principalmente para nós que estamos acostumados a um cinema (dos eua e seus imitadores) cheio de clichês e modelos prontos de personagens e tramas.