segunda-feira, maio 30, 2005

Bad boy da antiga

pequeno polegar em ação



Em quase todos seus jogos era um espetáculo com muitos dribles, fintas de corpo, chapéus e gols. Mas um lance dele virou lenda: com muita velocidade passou a bola por entre as pernas de um zagueiro, que ao olhar para trás viu seu algoz sentado sobre a bola esperando para dar outro drible.
Qual atacante teve a coragem de fazer uma molecagem dessas? Isso é coisa do Edmundo. Não? Do Romário? Edílson? Ronaldinho Gaúcho talvez? Um jogador do passado. Garrincha? Paulo César Caju? Pelé? Quem foi?! Um ponta-esquerda de 1,67 m apelidado de “Pequeno Polegar” pela torcida do Corinthians. Luiz Trochillo (1930-1998), também chamado carinhosamente de Luizinho, é idolatrado por todos os corintianos com mais de 50 anos, considerado o melhor jogador que o clube já teve.
Eu sou da geração que viu grandes jogos do Neto, Viola, Marcelinho Carioca, Ricardinho, e que assistiu algumas imagens gravadas do Sócrates e Casagrande. Luizinho começou a jogar em 1948, portanto tudo o que sei a seu respeito é por ouvir alguém falar ou textos que li sobre.
Craques do passado fazem parte daquela nostalgia comum dos mais velhos. Na época que somos jovens tudo parece melhor, o futebol, o cinema, a política, o sexo, a vida. Contudo, na época de Luizinho parece que havia mais liberdade para jogadores habilidosos como ele, não existiam esquemas táticos rígidos, nem pressão de patrocinadores. Sem contar que os jogos do Corinthians não passavam toda a semana na TV, ou seja, quem via uma jogada bonita no estádio sempre devia aumentar um pouco quando contava aos amigos.
O Pequeno Polegar também deu sorte, pois foi o carrasco do Palmeiras enquanto jogou. O maior rival do Corinthians levou 21 gols de Luizinho, inclusive o do título na histórica decisão do Campeonato Paulista do IV Centenário (1954), no Pacaembu. No total foram 172 gols e 589 jogos, recorde só quebrado pelo goleiro Ronaldo nos anos 90.
À exemplo de outros grandes jogadores (Nilton Santos, Leônidas da Silva, Didi, Ademir da Guia), Luizinho não vestiu a camisa de vários clubes (apenas passou rapidamente pelo Juventus entre 1961 e 1964). Some isso o fato dele ter um futebol divertido e bonito. Pronto, surge um jogador adorado pela torcida.
Em 1996, eu vi o Pequeno Polegar jogar no Pacaembu num amistoso para homenageá-lo e marcar a estréia de Edmundo no Corinthians. Diziam que este seria o sucessor de Luizinho no clube, tanto que entrou no lugar dele após o velhinho trocar alguns passes no jogo. Foi um fracasso, Edmundo não venceu nenhum campeonato e logo foi embora.
Ficou a impressão que craques como Luizinho não devem aparecer mais. Ele nasceu na região da zona leste paulistana, um reduto corintiano, o que foi mais um motivo para ser completamente identificado com o clube. Na atualidade jogadores tão criativos e alegres vão logo para a Europa, ou viram reservas de outros que sabem apenas marcar.
São raros os dribles, as fintas, as jogadas de efeito no futebol contemporâneo, assim como os gols também vão diminuindo nos campeonatos pelo mundo. O que vai sobrar? Torneios de carrinhos? Disputas de cobranças laterais? Campeonatos de chuveirinhos na área? É rir para não chorar.

quarta-feira, maio 25, 2005

software livre

Fórum Internacional Software Livre

terça-feira, maio 24, 2005

indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetta

florinda bolkan


nos fins de semana passam os melhores filmes da madrugada. na semana passada, sexta para sábado, vi o italiano investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita (1970), de elio petri.
é um daqueles ótimos filmes políticos que já não se fazem mais, como queimada! e z. em investigação..., a história de um policial que assassina sua amante éuma discussão corrosiva sobre as leis e o poder.
o ator principal, gian maria volonté, degola logo no início sua amante lasciva, a grande atriz brasileira florinda bolkan. mas ele faz questão de deixar todas as pistas possíveis para seus amigos policiais: deixa um fio da sua gravata na unha da vítima, suja a sola do seu sapato no sangue dela, deixa impressões digitais num copo e no telefone etc.
ele é um policial respeitado, justamente chefe do setor de homicídios, e que acaba de ganhar uma promoção para o departamento de informações políticas para caçar comunistas, anarquistas e outros subversivos.
por que essa loucura então? provar que o sistema não funciona? neurose causada pela convivência com tantos outros assassinos?
é um filme excelente por tratar de várias contradições de um homem da lei, envolto numa racionalidade extrema, fragilizado pelo ciúme (sim, existe uma terceira pessoa no romance), angustiado com seus erros, mas deslumbrado com o poder e obedecendo a normas fascistas, gian maria volonté representa um dos servos da organização do estado, o qual é carrasco e réu ao mesmo tempo.
investigação... também é um muito charmoso, bebe na fonte da recente rebeldia sexual dos fins dos anos 60. em flashbacks, ficamos sabendo da relação sado-masoquista entre o policial e a amante. ela gosta de simular agressões, estupros e de posar para fotografias como vítima dos insanos casos de homicídio do policial. inventivo e sensual.

gian maria volonté

domingo, maio 22, 2005

cueca e acidentes vasculares cerebrais

saddam hussein


é claro que as fotos de saddam hussein em jornais sensacionalistas são violações contra as convenções de genebra, o estatuto dos prisioneiros de guerra protege sua imagem da degradação ou curiosidade pública.
além de servir para vender jornal, ridicularizar o ex-ditador, provocar uma parte da resistência pró-saddam no iraque, e mostrar suas cuecas feias, acho também que essas fotos tem um contexto histórico importante.
saddam sempre apareceu nos meios de comunicação como um homem forte, com a imagem bem cuidada, barba feita, bigode aparado, cabelos penteados, portando armas, discursando em posição de destaque. portanto, fotos que mostrem ele como um homem de verdade, as suas condições reais na prisão, tem sim um grande valor.
é óbvio que este não era o momento certo, o iraque está em guerra e ele ainda é prisioneiro. essas fotos íntimas só vão servir agora para acirrar ódios. o ideal seria esperar algumas décadas, aícertamente as fotos teriam muito valor histórico.
lembro do caso de lênin (1870-1924), uma foto secreta dele divulgada muitos anos depois de sua morte. o principal líder da revolução russa teve um fim trágico com uma série de acidentes vasculares cerebrais (derrames hemorrágicos), a partir de 1922. há alguns anos vi uma foto dessa época. é triste e tocante, é um vegetal que não lembra em nada o grande líder, orador dos russos.
por questões políticas, repressão da ditadura soviética, décadas e décadas se passaram sem que essas imagens fossem divulgadas. a opção dos comunistas foi continuar a idolatrar a força de lênin, nunca mostrar seus últimos frágeis. daí aquelas centenas de estatuas em pose triunfante espalhadas pelo país.
porém, não analisando o caráter mórbido da foto, é claro que ela tem um grande valor histórico. é muito interessante ver como uma das grandes personalidades do século 20 terminou seus dias.

lênin no centro

quinta-feira, maio 19, 2005

Die öffentliche Meinung und die Wirkung der Massenmedien

pense diferente, mas guarde só para você. vendo a tv você aprendeu o que é certo e errado, formas de agir e preconceitos. e como você existem milhões, todos com a cabeça igual. então, para não ficarisolado, basta agir como todos os outros.
vacas de presépio vêem a realidade distorcida. elas amam o touro bandido, finalmente uma saga novelística que reflete nossa transformação: a manada de bois agindo todos iguais!
nessa espiral do silêncio, minha cara elisabeth noelle-neumann, decidimos aceitar a opinião dominante. na falta de alguém na mídia que legitime meus pensamentos, o melhor é ficar calado e impassível.

espiral do silêncio

terça-feira, maio 17, 2005

duas cabeças

a usaid, órgão do governo norte-americano para ajudas internacionais, ofereceu 20 milhões de dólares para o governo brasileiro combater a aids por aqui. porém, e sempre tem um porém, havia uma condição para esta doação: o brasil não deveria defender o direito à prostituição como meio de vida e, principalmente, não repassar verbas para entidades que prestam assistência aos profissionais do sexo.
o governo brasileiro rejeitou o dinheiro. uma questão de saúde pública não cabe mesmo ter conotações morais, discriminações não diminuem mortes. as prostitutas têm um risco maior de contrair a doença, não seria justo nem inteligente deixar de ajudar.
ainda nos eua, prefeitos democratas preocupados com as alterações no clima decidiram por conta própria aderir ao protocolo de kyoto. o governo bush não aceita reduzir poluentes com a justificativa de atrapalhar sua economia.
poluições do ar, do solo, da água também têm custos econômicos altos, pois afetam a agricultura, aumentam patologias, e diminuem recursos naturais. enfim, é um discurso mentiroso afirmar que o protocolo de kyoto vai quebrar o país.
hoje a direita cristã e grandes corporações mandam nos eua. felizmente existem atitudes diferentes no mundo e no próprio eua.

segunda-feira, maio 16, 2005

Um jardim zoológico nas tripas

Passava o dia pitando aqueles cigarros de palha bem grandes e fedorentos. Era chamado de preguiçoso, tanta coisa para fazer na roça e ele só vivia cansado. Pescava apenas de vez em quando. Caçava ou ia no mato pegar algo para comer sóquando dava coragem ou a fome apertava muito. Assim como ele, a mulher e os filhos eram todos magros e pálidos. Sua casinha caía aos pedaços, mas ele não tinha vontade de ajeitar.
A marvada pinga era o consolo do caboclo. Até diziam para ele que precisava fazer uma horta, arrumar a casa, remendar as roupas, mas a preguiça deixava? Não paga a pena, respondia Jeca Tatu. No álcool ele esquecia das desgraças da vida e ficava mais perto da morte.
Desanimado, nem cuidava do seu leal amigo, o cachorro Brinquinho. Magro e sarnento, o bicho aproveitava para se espichar ao sol no terreiro junto com seu dono. Os dois ficavam horas assim, matando os parasitas na quentura e tirando uma folga atéa próxima soneca.
Jeca Tatu ficava cansado só de pensar em formiga. A praga comia tudo o que ele plantava ou pensava em plantar, ter que matar todos esses bichinhos era muita trabalheira para ele. Os porquinhos e as galinhas no fundo de sua casa também davam muito serviço, eles que fossem buscar o que comer. Os animais não engordavam nem botavam muitos ovos.
Aparentando ser preguiçoso, bêbado e idiota, o Jeca Tatu de Monteiro Lobato tinha na verdade ancilostomose, a doença que deixa a pele amarelada. Um comportamento ignorante talvez seja a explicação mais próxima da sua realidade.
Carrasco de si mesmo, ele tinha condutas erradas de higiene e alimentação que prejudicavam toda sua vida. Jeca Tatu, como escreveu Lobato, tinha uma bicharia cruel que o fez papudo, feio, molenga e inerte. Eram os vermes da ancilostomose, Necator americanus e Ancylostoma duodenale, os quais atacam a mucosa intestinal e causam perda de sangue e anemia.
Por andar descalço pelo mato em lugares úmidos, esses vermes acabaram penetrando no corpo de Jeca Tatu através dos seus pés. A falta de saneamento adequado no local onde vivia obviamente era o motivo para os parasitas no solo. E, já com a doença no corpo, o caboclo piorava mais sua situação, pois não comia direito. Um simples pé de couve plantado no quintal poderia melhorar a situação, já que possuimuito ferro.
Seria ótimo se o Jeca Tatu fosse lembrado apenas como um personagem bucólico e engraçado da literatura, ou o caipira simples que Mazzaropi interpretou no cinema. Porém, a melancolia também acompanha o roceiro, numa vida pela metadesem sonhos ou motivações. É uma espécie de niilismo causado não por reflexões a respeito da existência, mas pelo atraso da sua condição.
Infecções, nascimentos prematuros, asfixia, causas hoje de muitas mortes ou seqüelas graves em crianças recém-nascidas, também têm suas raízes no atraso e na falta de informação. Acompanhamento médico (pré-natal), assistência social e acesso a antibióticos, praticamente acabariam com esses problemas.
A seu modo, em diferentes épocas e locais, muitos Jecas Tatus vão se reproduzindo e morrendo aos montes. Parecem mais com os vermes que pululam na sujeira do que com seres humanos. Sabemos que o vermífugo mais eficaz nessa situação é a educação para todos, mas o único alívio concedido é o etílico, ou bélico, demagógico, você escolhe.

segunda-feira, maio 09, 2005

Os sambaquieiros

Quem sabe se fossem vistosos como, por exemplo, as pirâmides, ou pertencessem ao patrimônio de algum país rico. Com isso os sambaquis na certa seriam mais conhecidos fora dos círculos acadêmicos. Mas eles fazem parte da desconhecida e maltratada pré-história brasileira. Eu mesmo só fui saber o que era um sambaqui há poucos anos atrás, quando li nas pequenas seções sobre ciência dos jornais brasileiros um texto sobre o contínuo desaparecimento dos sítios arqueológicos nacionais.
Chega até ser engraçado perceber, mas nossa história ignora quase que completamente o que ocorreu antes do nosso descobrimento oficial. O continente americano é habitado há pelo menos 15 mil anos, provavelmente graças a ondas migratórias vindas da Ásia atravessando o Estreito de Bering, entre Sibéria e Alasca. No litoral brasileiro, especialmente no sul e sudeste, nossos ancestrais deixaram, aproximadamente sete mil anos atrás, enormes marcas de sua presença, os sambaquis, que na língua tupi significa amontoado (tamba) de conchas (ki).
Essas construções rudimentares eram pilhas de dois até 30 metros de altura, num formato circular ou oval. Além das conchas, eram formadas também por outros restos de alimentação, como ossos de peixes e mamíferos, restos de fogueira e, algumas vezes, adornos e esculturas, tudo misturado à areia. As principais utilidades dos sambaquis eram servir como espaço de moradia e também um local para enterrar os mortos.
Seriam os lixões da pré-história? Acho que muitos devem estar com essa pergunta na cabeça. Até certo ponto é normal, pois ainda não é um costume brasileiro estudar ou lembrar fatos tão antigos, e também algo primitivo, que à primeira vista é apenas vestígio de uma população extremamente atrasada, são motivos para preconceitos.
Entretanto, o olhar sobre nossos ancestrais, ou de um modo geral o olhar sobre o diferente, é sempre condicionado por forças culturais, políticas, econômicas, sociais, as quais lentamente vão mudando. É provável que em mil anos no futuro nossos descendentes também estudem nossa sociedade e nos chamem de selvagens e atrasados.
Porém, é assustador pensar que os primeiros habitantes da América caminharam milhares de quilômetros para chegarem aqui. Enfrentaram no percurso nevascas, tempestades, florestas, rios, montanhas, sede, fome, doenças, animais selvagens. Tiveram que inventar no caminho as primeiras noções de sobrevivência em grupo. São razões de sobra para admirar os sambaquieiros.
As pesquisas sobre os sambaquis também mostram que ele foi uma espécie de centro social com várias funções. Seus moradores utilizavam esse grande monumento para dividir suas alegrias e tristezas, faziam suas celebrações religiosas e seculares, reuniões do grupo, atividades de lazer e subsistência, e o cultivo de suas relações emocionais.
Talvez esses conhecimentos sejam tão pouco divulgados porque o homem dos sambaquis já estava extinto quando os portugueses aqui chegaram, só restaram algumas de suas grandes construções. As teorias mais aceitas são que tribos mais evoluídas, leia-se com posse de armas mais mortíferas, dizimaram essa população. Depois, como todos sabem, foi a vez dos europeus fazerem o mesmo. Écruel mas sempre quem fica com a parte maior do bolo da história são os vencedores e mais poderosos. A maioria dos sambaquis foi destruída para abastecer a construção civil.

sábado, maio 07, 2005

mistério das línguas 2 (mentalês)

algo mais remoto que a escrita, mais antigo que a fala, é a nossa forma de raciocinar. alguns neurocientistas afirmam que o cérebro humano tem uma língua própria, algo como um mentalês. nossos pensamentos, ultra-rápidos, que envolvem reflexos, instintos, medos, inconsciente, tem uma linguagem própria que, apesar de estar dentro da nossa cabeça, não é traduzível facilmente. porém, é evidente que essa língua interna do cérebro acaba influenciando a linguagem externa.
na evolução dos homens, milhares de anos de erros e acertos devem ter sido necessários para que aos poucos o mentalês fosse adaptado para a comunicação externa. mas houve uma facilidade: como já escrevi o aparelho fonador dos homens é perfeito para a pronúncia de sons. outros animais, claro com um raciocínio menor do que os humanos, não conseguem emitir tantos sons diferentes. aquelas fábulas sobre animais falantes, lindas e maravilhosas, infelizmente não seriam mesmo possíveis. mas é interessante pensar que houve um tempo remoto em que nossa linguagem e a dos animais foi muito semelhante.

quarta-feira, maio 04, 2005

mistério das línguas 1 (palavras, linguagem, fala)

no aparelho fonador o ar expelido pelos pulmões, por via dos brônquios, penetra na traquéia e chega na laringe. o próximo passo é atravessar a glote, localizada na altura do pomo-de-adão ou gogó, uma abertura entre duas pregas musculares chamadas cordas vocais. o ar pode encontrá-las fechadas ou abertas. no primeiro caso, o ar força a passagem através das cordas vocais retesadas, surge uma vibração e um som musical característico das articulações sonoras. mas com elas abertas, relaxadas, o ar escapa sem vibrações, as articulações produzidas são surdas.
ao sair da laringe, o ar/som entra na cavidade faríngea, uma verdadeira encruzilhada sonora, pois tenho que optar pelo canal bucal ou o nasal. quem controla isso é o véu palatino, já que bloqueia ou não o ar na cavidade nasal.
os sons, orais ou nasais, ainda vão passar pela cavidade bucal, uma caixa de ressonância que funciona graças a inúmeros movimentos dos maxilares, bochechas, e principalmente da língua e dos lábios.
assim nós falamos.
mas como e por que os humanos falam? mais complicada fica a questão se chegarmos a conclusão de que a escrita deve ter aparecido muito depois da fala. então nossos primeiros sons deveriam ter uma linguagem bem diferente da de hoje. como era essa comunicação?
grunhidos, uivos, resmungos, algo assim, e na certa utilizávamos muito mais a linguagem corporal também para diferenciar cada som.