segunda-feira, maio 09, 2005

Os sambaquieiros

Quem sabe se fossem vistosos como, por exemplo, as pirâmides, ou pertencessem ao patrimônio de algum país rico. Com isso os sambaquis na certa seriam mais conhecidos fora dos círculos acadêmicos. Mas eles fazem parte da desconhecida e maltratada pré-história brasileira. Eu mesmo só fui saber o que era um sambaqui há poucos anos atrás, quando li nas pequenas seções sobre ciência dos jornais brasileiros um texto sobre o contínuo desaparecimento dos sítios arqueológicos nacionais.
Chega até ser engraçado perceber, mas nossa história ignora quase que completamente o que ocorreu antes do nosso descobrimento oficial. O continente americano é habitado há pelo menos 15 mil anos, provavelmente graças a ondas migratórias vindas da Ásia atravessando o Estreito de Bering, entre Sibéria e Alasca. No litoral brasileiro, especialmente no sul e sudeste, nossos ancestrais deixaram, aproximadamente sete mil anos atrás, enormes marcas de sua presença, os sambaquis, que na língua tupi significa amontoado (tamba) de conchas (ki).
Essas construções rudimentares eram pilhas de dois até 30 metros de altura, num formato circular ou oval. Além das conchas, eram formadas também por outros restos de alimentação, como ossos de peixes e mamíferos, restos de fogueira e, algumas vezes, adornos e esculturas, tudo misturado à areia. As principais utilidades dos sambaquis eram servir como espaço de moradia e também um local para enterrar os mortos.
Seriam os lixões da pré-história? Acho que muitos devem estar com essa pergunta na cabeça. Até certo ponto é normal, pois ainda não é um costume brasileiro estudar ou lembrar fatos tão antigos, e também algo primitivo, que à primeira vista é apenas vestígio de uma população extremamente atrasada, são motivos para preconceitos.
Entretanto, o olhar sobre nossos ancestrais, ou de um modo geral o olhar sobre o diferente, é sempre condicionado por forças culturais, políticas, econômicas, sociais, as quais lentamente vão mudando. É provável que em mil anos no futuro nossos descendentes também estudem nossa sociedade e nos chamem de selvagens e atrasados.
Porém, é assustador pensar que os primeiros habitantes da América caminharam milhares de quilômetros para chegarem aqui. Enfrentaram no percurso nevascas, tempestades, florestas, rios, montanhas, sede, fome, doenças, animais selvagens. Tiveram que inventar no caminho as primeiras noções de sobrevivência em grupo. São razões de sobra para admirar os sambaquieiros.
As pesquisas sobre os sambaquis também mostram que ele foi uma espécie de centro social com várias funções. Seus moradores utilizavam esse grande monumento para dividir suas alegrias e tristezas, faziam suas celebrações religiosas e seculares, reuniões do grupo, atividades de lazer e subsistência, e o cultivo de suas relações emocionais.
Talvez esses conhecimentos sejam tão pouco divulgados porque o homem dos sambaquis já estava extinto quando os portugueses aqui chegaram, só restaram algumas de suas grandes construções. As teorias mais aceitas são que tribos mais evoluídas, leia-se com posse de armas mais mortíferas, dizimaram essa população. Depois, como todos sabem, foi a vez dos europeus fazerem o mesmo. Écruel mas sempre quem fica com a parte maior do bolo da história são os vencedores e mais poderosos. A maioria dos sambaquis foi destruída para abastecer a construção civil.