segunda-feira, maio 16, 2005

Um jardim zoológico nas tripas

Passava o dia pitando aqueles cigarros de palha bem grandes e fedorentos. Era chamado de preguiçoso, tanta coisa para fazer na roça e ele só vivia cansado. Pescava apenas de vez em quando. Caçava ou ia no mato pegar algo para comer sóquando dava coragem ou a fome apertava muito. Assim como ele, a mulher e os filhos eram todos magros e pálidos. Sua casinha caía aos pedaços, mas ele não tinha vontade de ajeitar.
A marvada pinga era o consolo do caboclo. Até diziam para ele que precisava fazer uma horta, arrumar a casa, remendar as roupas, mas a preguiça deixava? Não paga a pena, respondia Jeca Tatu. No álcool ele esquecia das desgraças da vida e ficava mais perto da morte.
Desanimado, nem cuidava do seu leal amigo, o cachorro Brinquinho. Magro e sarnento, o bicho aproveitava para se espichar ao sol no terreiro junto com seu dono. Os dois ficavam horas assim, matando os parasitas na quentura e tirando uma folga atéa próxima soneca.
Jeca Tatu ficava cansado só de pensar em formiga. A praga comia tudo o que ele plantava ou pensava em plantar, ter que matar todos esses bichinhos era muita trabalheira para ele. Os porquinhos e as galinhas no fundo de sua casa também davam muito serviço, eles que fossem buscar o que comer. Os animais não engordavam nem botavam muitos ovos.
Aparentando ser preguiçoso, bêbado e idiota, o Jeca Tatu de Monteiro Lobato tinha na verdade ancilostomose, a doença que deixa a pele amarelada. Um comportamento ignorante talvez seja a explicação mais próxima da sua realidade.
Carrasco de si mesmo, ele tinha condutas erradas de higiene e alimentação que prejudicavam toda sua vida. Jeca Tatu, como escreveu Lobato, tinha uma bicharia cruel que o fez papudo, feio, molenga e inerte. Eram os vermes da ancilostomose, Necator americanus e Ancylostoma duodenale, os quais atacam a mucosa intestinal e causam perda de sangue e anemia.
Por andar descalço pelo mato em lugares úmidos, esses vermes acabaram penetrando no corpo de Jeca Tatu através dos seus pés. A falta de saneamento adequado no local onde vivia obviamente era o motivo para os parasitas no solo. E, já com a doença no corpo, o caboclo piorava mais sua situação, pois não comia direito. Um simples pé de couve plantado no quintal poderia melhorar a situação, já que possuimuito ferro.
Seria ótimo se o Jeca Tatu fosse lembrado apenas como um personagem bucólico e engraçado da literatura, ou o caipira simples que Mazzaropi interpretou no cinema. Porém, a melancolia também acompanha o roceiro, numa vida pela metadesem sonhos ou motivações. É uma espécie de niilismo causado não por reflexões a respeito da existência, mas pelo atraso da sua condição.
Infecções, nascimentos prematuros, asfixia, causas hoje de muitas mortes ou seqüelas graves em crianças recém-nascidas, também têm suas raízes no atraso e na falta de informação. Acompanhamento médico (pré-natal), assistência social e acesso a antibióticos, praticamente acabariam com esses problemas.
A seu modo, em diferentes épocas e locais, muitos Jecas Tatus vão se reproduzindo e morrendo aos montes. Parecem mais com os vermes que pululam na sujeira do que com seres humanos. Sabemos que o vermífugo mais eficaz nessa situação é a educação para todos, mas o único alívio concedido é o etílico, ou bélico, demagógico, você escolhe.