sexta-feira, junho 24, 2005

acareação total

deputados, empresários, publicitários, tesoureiros, arapongas, políticos, secretárias, funcionários públicos... quem mente? quem diz a verdade? ou o que ocultam?
uma acareação total poderia terminar na bala, mas certamente esclareceria muita coisa. é até surreal imaginar a cena, todos os corruptos, ou pseudocorruptos, juntos numa sala, se acusando, um psicodrama coletivo. sofismas, xingamentos, retórica, choro, gritos, realmente dá até medo pensar...
mas todas as máscaras iriam cair, talvez todo mundo entrasse em cana, e quem sabe a ética não seria mais uma palavra exótica.

quinta-feira, junho 23, 2005

quadrilha

hoje se sabe que a diretoria dos correios tinha, ou tem, uma diretoria ligada ao pt, pmdb e ao ptb. diversos setores da estatal loteados com os partidos, recebendo dinheiro e traficando influência.
a famosa fita do ex-chefe de departamento dos correios, maurício marinho, ligou o ventilador e o deputado roberto jefferson iniciou o lançamento de merda no eletrodoméstico. é evidente que a chave para entender isso é saber o real motivo da gravação da fita do suborno, quem foi o mandante? suspeita-se que a agência brasileira de inteligência está por trás, e quem mandava nela era o zé dirceu. já o pt fala em conspiração das elites para impedir a reeleição do lula.
o canastrão do roberto jefferson pelo menos revelou os esquemas nas estatais, verdadeiras fábricas de dinheiro para os partidos aliados. parece mais plausível que uma disputa pelo poder entre a quadrilha tenha causado as denúncias. aí o deputado atirou para onde todo mundo sabe existir indícios de corrupção: os partidos fisiologistas e nepotistas pp e pl, e a alta cúpula do pt, que vira e mexe é citada (waldomiro diniz, bingos, dinheiro ilegal de campanhas).

quarta-feira, junho 22, 2005

dois crimes

roberto jefferson já assumiu dois crimes. receber 4 milhões do pt, sem nenhuma nota, para supostamente financiar campanhas é o primeiro. afirmar que tentou cobrar dos empresários ligados ao irb (instituto brasileiro de resseguros) uma mesada para o ptb é o segundo.
é interessante que a oposição e a mídia dão mais atenção ao mensalão do que a esses crimes. sabe-se que essas práticas não são exclusivas do ptb, nem do governo lula. por isso se calam. as estatais são fábricas de dinheiro para os partidos.
quanto à mídia, parece que o mensalão é mais escraboso, choca mais a audiência, por isso é mais mencionado.
é uma pena, pois podia ser uma chance de fazer uma reforma política de verdade. não há regras éticas para os políticos brasileiros.

terça-feira, junho 14, 2005

Longa espera

Não é possível pensar a vida sem pensar também a morte, ela é a visita que sempre vai chegar. Por isso, existem aqueles que se preparam para o fim, juntam dinheiro para o enterro, deixam bens para os parentes, dão conselhos para os que vão ficar mais tempo. Outros não suportam falar da morte, mas justamente por esse medo, muitas vezes acabam pensando como ela será. Já os suicidas não podem esperar o momento de morrer, olham para a vida e decidem parar.
É claro que é angustiante pensar no que é a morte. Na cultura ocidental ela está muito relacionada com dor, o final para tudo. Algumas pessoas até agüentam melhor esses sentimentos, entendendo a morte apenas como o início de outra vida, porém em todos a saudade machuca muito. Se existe um consolo, é que a morte é inevitável para qualquer um, pode demorar mas ninguém escapa, rico ou pobre.
A morte é tema freqüente nas artes, numa tentativa de entendê-la, às vezes com admiração, às vezes com ódio. Mas há também o desejo de engana-la, imaginar a imortalidade. Viver para sempre no gozo, sem o castigo da morte. Acredito que a maioria de nós pense assim a existência de um imortal, pois a morte é algo desagradável para a maioria. Entretanto, morrer também tem o sentido do descanso, do término do sofrimento, o final de uma missão, enfim, um modo de ver a morte que só aprendemos ou aceitamos na velhice.
A lenda do judeu errante segue essa última linha de pensamento, a imortalidade não é vista como um presente, mas como uma maldição. No “Dicionário do folclore brasileiro”, Luís da Câmara Cascudo conta que esse mito parece ter surgido na Europa no século IV e, com algumas modificações, foi se espalhando pelo mundo todo. A versão mais corrente conta que um sapateiro judeu chamado Ahasverus viu Jesus parar em frente de sua tenda carregando a cruz do calvário, motivo para ficar irritado e empurrar o filho de Deus, pois ele estava atrapalhando seu negócio. Para completar o quadro odioso Ahasverus ainda gritava “vai andando! vai logo!”. Jesus respondeu de forma implacável: “Eu vou e tu ficarás até a minha volta!”. E até hoje o sapateiro vaga pelo mundo.
Além do evidente preconceito contra os judeus, essa história trata a imortalidade como um castigo, um sofrimento terrível. O ganancioso Ahasverus poderia ter ficado contente com a praga de Jesus, já que segundo a lenda ganhou a oportunidade de cuidar de sua lojinha por mais de dois mil anos, porém não há esse tipo de menção. O nome como ficou conhecida a história, “O Judeu Errante”, já carrega um juízo de valor sobre a imortalidade. É como se Ahasverus tivesse sido transformado em um pária, condenado a viver indefinidamente sem o alívio que a morte traz para uma vida árdua e longa.
Todos nós cometemos inúmeros erros na vida, assim a morte também tem um sentido de redenção, arrependimento. Entretanto, isso é algo que o judeu errante não terá enquanto durar sua maldição. Óbvio que nessa lenda a imortalidade de Ahasverus é tida como algo tão horrível graças à maldade que ele fez para Jesus, é um castigo, não uma graça. Mesmo assim é interessante pensar a morte como uma necessidade para os seres humanos. Talvez o tão procurado sentido da vida seja simplesmente morrer um dia para cessarem as misérias da existência. Nada de teorias transcendentais ou de auto-ajuda.
É curioso notar também que os judeus têm esse sentimento da longa espera em sua própria história, já que ainda aguardam por seu messias. E como na lenda do sapateiro Ahasverus , o povo judaico já foi acusado de supostas maldades e sofreu barbaramente por isso.

segunda-feira, junho 06, 2005

Cárceres

Antes havia um tapete, sob o qual varriam a sujeira. Já os novos donos do prédio preferem não esconder mais, pois aprenderam a reciclar o lixo. Contudo, de modo insólito, essa transformação do que não é mais desejado não produz algo útil, ao contrário, cria mais lixo. É claro que os outros moradores sentem-se incomodados com o aumento dos entulhos. Uma parte pensa em se mudar, alguns tentam limpar seus cômodos, e como sempre a maioria vai se acostumando com a sujeira e com o sofrimento que ela traz.
Embaixo do tapete do Estado Novo, o escritor Graciliano Ramos foi preso em 1936. Em suas “Memórias do Cárcere” ficamos sabendo que sua prisão foi arbitrária, pois, como ocorreu com tantos outros colegas seus de cela, não havia acusação. Quem fizesse conspiração comunista, ou apenas insinuasse algo próximo, era alvo do regime ditatorial. Uma época de perseguição política e abafamento de qualquer oposição ou posição mais inteligente.
Na ficção de “O Processo” (1925), de Franz Kafka, também nunca sabemos o porquê da prisão de Josef K. É uma justiça que domina pelo mistério, pela intimidação. A obra de Graciliano fala de um Brasil assim, com uma mão-de-ferro que esconde ao máximo suas ações violentas. Os ambientes dos dois escritores, tribunais e prisões, são absurdos e estúpidos. Essa lógica, ou a falta dela, não dá a mínima chance para o condenado/acusado entender ou tentar sair de sua detenção. Nada disso, o oprimido acaba se rendendo e participa dessa farsa. Graciliano escreveu muitas passagens sobre opositores ao regime que faziam jogo duplo na prisão, bem como aqueles que na sujeira do cárcere deixavam se corromper pela vaidade e o egoísmo.
São outros tempos, a política evoluiu, o Estado evoluiu. A democracia não faz mais questão de encobrir horrores ou normas insensatas. Os proprietários e síndicos da política deixam a fofoca correr solta, eles sabem que isso só confunde. E mesmo quando a sujeira é muita, eles repetem uma mentira consoladora várias vezes, logo essa vira uma verdade.
Labirinto de impostos, taxas e contribuições. Justiça lenta e cara. Grupos de extermínio formado por policiais. Desnutrição infantil. Fisiologismo nos poderes. Florestas transformadas em móveis ou monocultura. É o que repetem todo dia na mídia, em excesso, porém sem contextualização ou crítica. Explicações existem, muitas. Herança maldita, crise econômica, leis antigas, reformas de instituições, pouca renda e educação. O cachorro morde o próprio rabo, a barbárie se justifica e permanece.