segunda-feira, junho 06, 2005

Cárceres

Antes havia um tapete, sob o qual varriam a sujeira. Já os novos donos do prédio preferem não esconder mais, pois aprenderam a reciclar o lixo. Contudo, de modo insólito, essa transformação do que não é mais desejado não produz algo útil, ao contrário, cria mais lixo. É claro que os outros moradores sentem-se incomodados com o aumento dos entulhos. Uma parte pensa em se mudar, alguns tentam limpar seus cômodos, e como sempre a maioria vai se acostumando com a sujeira e com o sofrimento que ela traz.
Embaixo do tapete do Estado Novo, o escritor Graciliano Ramos foi preso em 1936. Em suas “Memórias do Cárcere” ficamos sabendo que sua prisão foi arbitrária, pois, como ocorreu com tantos outros colegas seus de cela, não havia acusação. Quem fizesse conspiração comunista, ou apenas insinuasse algo próximo, era alvo do regime ditatorial. Uma época de perseguição política e abafamento de qualquer oposição ou posição mais inteligente.
Na ficção de “O Processo” (1925), de Franz Kafka, também nunca sabemos o porquê da prisão de Josef K. É uma justiça que domina pelo mistério, pela intimidação. A obra de Graciliano fala de um Brasil assim, com uma mão-de-ferro que esconde ao máximo suas ações violentas. Os ambientes dos dois escritores, tribunais e prisões, são absurdos e estúpidos. Essa lógica, ou a falta dela, não dá a mínima chance para o condenado/acusado entender ou tentar sair de sua detenção. Nada disso, o oprimido acaba se rendendo e participa dessa farsa. Graciliano escreveu muitas passagens sobre opositores ao regime que faziam jogo duplo na prisão, bem como aqueles que na sujeira do cárcere deixavam se corromper pela vaidade e o egoísmo.
São outros tempos, a política evoluiu, o Estado evoluiu. A democracia não faz mais questão de encobrir horrores ou normas insensatas. Os proprietários e síndicos da política deixam a fofoca correr solta, eles sabem que isso só confunde. E mesmo quando a sujeira é muita, eles repetem uma mentira consoladora várias vezes, logo essa vira uma verdade.
Labirinto de impostos, taxas e contribuições. Justiça lenta e cara. Grupos de extermínio formado por policiais. Desnutrição infantil. Fisiologismo nos poderes. Florestas transformadas em móveis ou monocultura. É o que repetem todo dia na mídia, em excesso, porém sem contextualização ou crítica. Explicações existem, muitas. Herança maldita, crise econômica, leis antigas, reformas de instituições, pouca renda e educação. O cachorro morde o próprio rabo, a barbárie se justifica e permanece.

1 Comments:

At 4:03 PM, Blogger MADRUGADA SOLITARIA said...

Reinaldo....PARABENS!!!!!....adorei seu blog e a sua qualidade de escrever!!!....
beijos mil!!
Alex.-

 

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