terça-feira, junho 14, 2005

Longa espera

Não é possível pensar a vida sem pensar também a morte, ela é a visita que sempre vai chegar. Por isso, existem aqueles que se preparam para o fim, juntam dinheiro para o enterro, deixam bens para os parentes, dão conselhos para os que vão ficar mais tempo. Outros não suportam falar da morte, mas justamente por esse medo, muitas vezes acabam pensando como ela será. Já os suicidas não podem esperar o momento de morrer, olham para a vida e decidem parar.
É claro que é angustiante pensar no que é a morte. Na cultura ocidental ela está muito relacionada com dor, o final para tudo. Algumas pessoas até agüentam melhor esses sentimentos, entendendo a morte apenas como o início de outra vida, porém em todos a saudade machuca muito. Se existe um consolo, é que a morte é inevitável para qualquer um, pode demorar mas ninguém escapa, rico ou pobre.
A morte é tema freqüente nas artes, numa tentativa de entendê-la, às vezes com admiração, às vezes com ódio. Mas há também o desejo de engana-la, imaginar a imortalidade. Viver para sempre no gozo, sem o castigo da morte. Acredito que a maioria de nós pense assim a existência de um imortal, pois a morte é algo desagradável para a maioria. Entretanto, morrer também tem o sentido do descanso, do término do sofrimento, o final de uma missão, enfim, um modo de ver a morte que só aprendemos ou aceitamos na velhice.
A lenda do judeu errante segue essa última linha de pensamento, a imortalidade não é vista como um presente, mas como uma maldição. No “Dicionário do folclore brasileiro”, Luís da Câmara Cascudo conta que esse mito parece ter surgido na Europa no século IV e, com algumas modificações, foi se espalhando pelo mundo todo. A versão mais corrente conta que um sapateiro judeu chamado Ahasverus viu Jesus parar em frente de sua tenda carregando a cruz do calvário, motivo para ficar irritado e empurrar o filho de Deus, pois ele estava atrapalhando seu negócio. Para completar o quadro odioso Ahasverus ainda gritava “vai andando! vai logo!”. Jesus respondeu de forma implacável: “Eu vou e tu ficarás até a minha volta!”. E até hoje o sapateiro vaga pelo mundo.
Além do evidente preconceito contra os judeus, essa história trata a imortalidade como um castigo, um sofrimento terrível. O ganancioso Ahasverus poderia ter ficado contente com a praga de Jesus, já que segundo a lenda ganhou a oportunidade de cuidar de sua lojinha por mais de dois mil anos, porém não há esse tipo de menção. O nome como ficou conhecida a história, “O Judeu Errante”, já carrega um juízo de valor sobre a imortalidade. É como se Ahasverus tivesse sido transformado em um pária, condenado a viver indefinidamente sem o alívio que a morte traz para uma vida árdua e longa.
Todos nós cometemos inúmeros erros na vida, assim a morte também tem um sentido de redenção, arrependimento. Entretanto, isso é algo que o judeu errante não terá enquanto durar sua maldição. Óbvio que nessa lenda a imortalidade de Ahasverus é tida como algo tão horrível graças à maldade que ele fez para Jesus, é um castigo, não uma graça. Mesmo assim é interessante pensar a morte como uma necessidade para os seres humanos. Talvez o tão procurado sentido da vida seja simplesmente morrer um dia para cessarem as misérias da existência. Nada de teorias transcendentais ou de auto-ajuda.
É curioso notar também que os judeus têm esse sentimento da longa espera em sua própria história, já que ainda aguardam por seu messias. E como na lenda do sapateiro Ahasverus , o povo judaico já foi acusado de supostas maldades e sofreu barbaramente por isso.