segunda-feira, setembro 26, 2005

a carne é fraca


A carne (e tudo mais) é fraca

Produção em larga escala, ritmo industrial e lucros em excesso. Essa combinação é base de quase toda atividade humana hoje, razão para o luxo, a riqueza e a tecnologia que uma parte do planeta tem. O lado positivo desse processo está mais do que escancarado nas grandes cidades, na mídia e nos discursos oficiais, então escolho a tarefa chata e crítica da demolição desse modo de vida, inspirado num documentário um tanto sentimentalóide que vi recentemente, “A carne é fraca” (2004), de Denise Gonçalves.
Nina Rosa Jacob é a ambientalista defensora dos animais responsável por uma ONG e por esse filme, o qual consiste em uma série de depoimentos contrários à cultura da carne. Jornalistas, médicos, ambientalistas, nutricionistas, e até personalidades como o boxeador Éder Jofre, defendem ao longo do documentário idéias ou informações sobre os males do consumo e produção da carne no mundo. Essa indústria tem uma produção em larga escala, já que o consumo dos países ricos é impressionante. Como dar conta dessa grande demanda? As aves, bois, peixes, ou qualquer outro tipo de bicho, recebem doses cada vez maiores de antibióticos e hormônios para que a “linha de montagem” tenha poucos defeitos e produza incessantemente. É evidente que essas substâncias são cancerígenas, mas o consumidor morre pela boca lentamente, só se dá conta do veneno que ingere depois de anos e anos.
Pela lógica do lucro não basta apenas produzir em super quantidades, é necessário também diminuir os gastos mais e mais. O Brasil tem áreas gigantes com uma coisa considerada inútil por boa parte de sua população: florestas. As maiores reservas de biodiversidade do mundo estão se transformando em pasto ou área de criação para os animais de corte. E para alimentar toda essa bicharada, derrubam ainda mais florestas para o plantio da soja. Mencionem-se ainda as toneladas de detritos que esses animais produzem, poluição jogada nos rios e no solo.
Essas são as razões práticas e objetivas para não consumir, ou pelo menos diminuir a produção de carne no mundo. O documentário tem ainda um plus, um lado propaganda mais subjetivo e emotivo. Nina Jacob é uma senhora que parece uma doce vovó, com voz meiga e pausada. Ela faz emocionados discursos contra o sofrimento de pintinhos, bezerros e todo tipo de bicho. Até tem muita razão, pois no sistema industrial os animais são tratados como máquinas: vivem em espaços minúsculos, comem apenas comida artificial e padronizada, e aqueles com algum tipo de “defeito” ou doença são automaticamente mortos. Entretanto as músicas sentimentais e as imagens editadas dos maus tratos nos bichos têm um tom um tanto apelativo. Na sua intenção, qual seja, acabar com o consumo de carne, o documentário tem toda a razão em utilizar técnicas de propaganda, mas num contexto mais imparcial talvez fosse mais interessante mostrar também as pequenas criações de animais, nas quais existe respeito ao consumidor e não há maus tratos. Claro, essa é minha visão, de homem das cavernas carnívoro para alguns, ou de carnívoro mais consciente para outros.
“A carne é fraca” tem ainda aquelas cenas horripilantes e sanguinárias do abate dos bichos. De fato, quem vê como um boi sofre até se transformar no bife acebolado que comemos toda a semana, fica pelo menos com um pouco de pena antes de dar a próxima mordida. Uma excelente peça do dramaturgo e poeta alemão Bertolt Brecht (1898-1956), “A Santa Joana dos Matadouros”, aproveita muito bem esse ambiente macabro dos matadouros como comparação com as relações humanas. Na peça, Pedro Paulo Bocarra, o magnata da carne enlatada, trata seus empregados como “gado”, com péssimas condições de segurança e salários de fome. Por meio de uma super produção ele ainda manipula e corrompe como quer o mercado de carnes, sempre visando lucros maiores.
Acho que existe um ditado sobre a fabricação das lingüiças, mais ou menos assim: se você vir como é feita uma lingüiça, nunca mais comerá outra. Não sei bem quando adaptaram isso para a política. Nada mais exato. O político profissional age como um industrial sanguinário. Aqui, Lula só foi eleito quando Duda Mendonça o transformou no sabonete “Lulinha Paz&Amor”. A estética venceu o conteúdo. Em grandes linhas de montagem ultradisciplinadas, os stalinistas do Zé Dirceu criaram máquinas de propinas para pagar a campanha do sabonete. O restante foi pago por grandes investidores captados por Delúbio, como o PL e Marcos Valério. O PT virou uma indústria de aparência cor-de-rosa com um projeto de poder e lucro por décadas. Nesse caso, os pontos negativos são a corrupção e o abandono de um suposto plano de governo mais social e inteligente para o país.
Isso tudo também vale para a minha profissão. Há uma indústria da informação na qual existe uma saturação de imagens e textos padronizados. Os jornalistas ganham cada vez menos e trabalham cada vez mais. As redações se pautam por falas oficiais ou de grandes anunciantes. Sem crítica e superficial, o jornalismo nem mais forma opiniões, é só entretenimento.
A Joana Dark de Brecht tentava abrir os olhos do povo para esse mundo industrial cheio de ganância e injustiças. Era uma heroína ingênua que desceu às profundezas da miséria, do lucro, da fé interesseira e da violência, tentando entender e acabar com as injustiças dos homens. Porém ninguém, nem os próprios oprimidos, aceitaram a liberdade e a igualdade, Joana acabou morta. Eis o dilema primordial do ser humano: ser dominado e destruído por estruturas de poder autoritárias, ou ter a coragem e a disposição para criar alternativas menores e mais trabalhosas, porém autogestionadas, livres e igualitárias?

2 Comments:

At 11:35 AM, Anonymous Anônimo said...

Is the nano screen issue really two separate problems?
But, now I wonder if it is a screen issue or something else entirely . You can see the bottom right corner of my screen and part of the shell in the photo attached here.
Hey
If you have some time please visit my site How to make money selling on ebay

 
At 8:44 PM, Anonymous julio brnadao said...

aonde posso conseguir esse video
fiquei mot interessado em ve-lo

 

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