sábado, setembro 17, 2005

O dia em que Vishnu se recordou de um sonho e chorou

Eu gosto daquela teoria do Big Bang de que houve um começo vindo do nada, mas acho que da mesma forma deve haver um fim para tudo, que a ciência também teorizou chamando de Big Crunch. No Big Bang, um pequeno ponto, com muita matéria concentrada, por alguma razão saiu de equilíbrio e explodiu, se expandindo e criando o Universo. O Big Crunch prevê que essa expansão vai terminar um dia, e o Universo vai se comprimir e voltar a ser um pequeno ponto. Depois, tudo recomeçaria e a criação esperaria mais uma vez pelo momento de se transformar em destruição.
Acho que a ciência é bela nestes momentos, quando encontra o absurdo e o explica com algo sem explicação. Ainda mais essa idéia, a idéia do eterno retorno, algo em que os homens sempre se viram envolvidos, pois a vida de uma única pessoa é uma repetição das mesmas dores e alegrias, como a história coletiva dos homens é uma lembrança das glórias e desgraças do passado.
E já que todo o cosmo é algo errante, então eu só posso supor que ele seja um sonho complexo e inexplicável, que se repete toda a noite. Talvez seja isso mesmo, um sonho de um deus que quando dorme, sonha e cria o Universo. Um sonho de bilhões de anos, cheio de galáxias, planetas, estrelas, buracos negros, e inúmeros seres vivos, todos com seus caminhos cruzados. Mas depois de tanto dormir, ele acorda e só restam lembranças confusas, aguardando o próximo sonhar para reiniciar a jornada.
Mas, agora fico pensando, deus, o próprio Vishnu, que agora dorme e sonha com a minha vida, até este momento em que eu, o seu sonho, começa a escrever sobre o que ele está criando. Deve ser muito angustiante para ele, acordar e não se recordar de seus sonhos, não poder apreciar devidamente as suas criações. Por isso Vishnu sempre volta a dormir. Ele não se conforma com a destruição daquilo que criou, sente saudade, e torna a sonhar.
Nós, as criações dos sonhos divinos, também temos essa graça do sonhar, mas, como ele, recebemos a maldição de acordar. E nossa situação é ainda mais desesperadora, pois o prazer do que criamos em nossos sonhos dura só algumas horas, e pior, somos mortais e vivemos pouco. Por isso buscamos oráculos que desvendem nossos breves sonhos, e quando estamos acordados, tentamos, guiados por Vishnu, incessantemente construir uma existência na vigília que seja próxima a do sonhar.
Enfim, nesse momento, em que sei que devo minha criação a um deus dorminhoco, eu ouso escrever que gostaria de me libertar. Não tenho andado muito contente com o que ele está sonhando. Preferiria poder agir sozinho, buscar outras formas de expandir meus devaneios. Me sentir livre uma vez, nem que fosse para deixar de existir no momento seguinte.